A leitura dos textos da análise crítica do projeto multimídia Isabella surpreendeu pela qualidade e pela reflexão feita pela maioria dos alunos. Não há um enfoque único, o que era inevitável, mas a maioria se concentrou na análise do papel da imprensa e dos meios comunicação, mostrando a forma como o caso foi transformado numa espécie de seriado ou novela ao vivo.
Alguns alunos destacaram o caráter instigador do projeto, ou seja, a preocupação dos seus autores em levar os visitantes a pensar. Eis alguns trechos que chamaram a minha atenção e a de outros professores aos quais submeti parte dos trabalhos:
“Acredito que o uso de um narrador tornaria esse documentário multimídia muito próximo de tudo que assistimos diariamente nos jornais (onde apenas, mesmo sem perceber, engolimos as informações fornecidas, com suas versões da história)”.
“Olhando apenas para as fotos, temos a oportunidade de refletir, não diretamente sobre o caso, mas sobre a forma como a imprensa se envolveu e fez a cobertura como se nunca nenhuma outra criança tivesse sido assassinada”.
“Será que foi a justiça que julgou os acusados do caso da garota? Sim, pode até ter sido ela que fez a parte burocrática, mas foi o sentimento mostrado em forma de comunicação do povo que adiantou o processo e pré-condenou o pai e a madrasta.
Por que então essa forma de comunicação coletiva do povo é pouco divulgada ou explorada? Por um lado pelo medo do povo assumir o que é seu por direito, por outro lado pela falta de controle. Não é possível controlar uma turba, imagine se os acusados forem inocentes, teria algum juiz a coragem de ir contra uma população inteira? Acho que não, Ainda mais em um ano eleitoral”.
“Jornalistas, pauteiros e toda a imprensa centralizam o personagem da história, pois se não fosse pela super-exposição, não formariam a opinião de massa do jeito como foi formada”.
“...não é difícil perceber, a meu ver, que o foco é dirigido primeiramente para a relação da imprensa com os acontecimentos e, conseqüentemente, para a relação entre os espectadores e a imprensa. Em outras palavras, os personagens principais do filme são, em suma, a imprensa (e seu show) e os espectadores, a multidão que se aglomera em frente aos locais onde os acontecimentos acontecem”.
“O multimídia feito pelo site Garapa tem como principal foco, mostrar a apropriação que a mídia faz de um caso, o exagero de cobertura e como ela pode transformá-lo em algo parecido com uma novela. A maioria das pessoas não está ali pela menina, e sim pelo acontecido e pela oportunidade. Elas querem participar daquilo que a mídia transformou num grande circo, sem se dar conta de que são apenas figurantes, numa história de assassinato onde a vítima não faz o papel principal”.
“O documentário mostra a maneira que a mídia fez com que o “caso Isabella” se torna-se em uma tele-novela, mostrando na primeira parte o profissionais fazendo a cobertura de minuto a minuto, quase um Big Brother, eu diria. E na segunda parte o público revoltado, como se o pai e madrasta, fossem os vilões deste mais novo “seriado jornalísticos”, mas ao mesmo tempo adorando estar aparecendo na TV, radio ou qualquer outro meio de comunicação”.
“...o personagem central da história está focado no poder de repercussão da mídia sobre as massas, pois fez com que o público que se aglomerou em frente à casa dos familiares do casal Nardoni, assim como, em frente ao 77º Departamento de Polícia, fosse induzido a tratar do assunto como se estivesse numa telenovela em tempo real, devido à ênfase dada pelos meios de comunicação de massa, principalmente a televisão”.
...” O que chama bastante atenção é o áudio, fechou com o conteúdo das imagens. A edição ficou clara, “casou as imagens com o áudio”. Lembra as trilhas sonoras de filmes e seriados de investigação policial”.
...“fizeram do próprio espectador o personagem principal, nas primeiras coberturas do caso foram é claro o casal, digamos que fizeram uma chamada para as pessoas, e então viram que tiveram retorno e viraram a história colocando nós cidadãos como personagem principal, procurando testemunhas, falando com o povo, mostrando a indignação de todos, fizeram com que o telespectador se sentisse parte daquela família, parte da Isabella. Espelharam o caso com sua própria vida, usando “e se fosse com você?”, “ com sua filha?”, “ com seu parente?”...E talvez seja isso que as pessoas querem, participar, serem ouvidas, vistas” .
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